terça-feira, 27 de outubro de 2009

Profissão: Prostituta



“Maquiagem, salto alto, vestido curta e bolsa pequena”, estes são apenas alguns acessórios de Flávia Oliveira, 18 anos, que adotou este nome fictício ao tornar-se travesti e começar fazer o famoso ‘ponto’ nas ruas de Poços de Caldas.
Conhecida como Flavinha ela conta que se tornou travesti e prostituta há um ano porque quis. “Ninguém me obrigou a nada, desde pequena eu queria isso e somente agora eu tomei esta postura para me assumir mesmo, entendeu?! É uma coisa que eu quero mesmo”, dispara.
Por sempre ter tido uma convivência no meio de mulheres, Flavinha conta que nunca levou jeito para ser hétero, então começou a tomar remédios e tornar-se mais feminina, além de brincar mais com mulheres.
“Eu fui criada por mulheres, sempre convivi neste meio. Os homens da minha casa trabalhavam, então eu sempre vivi em meio às mulheres. Então, para tornar-me o que sou hoje, eu comecei a tomar certos tipos de remédios, usar coisas mais femininas, desde os meus 12 anos e até hoje eu me sinto evoluindo. Então, aos 17 anos eu decidi ser travesti, mas uma travesti de programa”, detalha.
Ao ser indagada sobre o momento em que descobriu ser homossexual e se decidiu pela prostituição, Flavinha lembra que teve a primeira experiência sexual aos 10 anos. “Mas eu ainda tinha medo e a incerteza de querer realmente aquilo para minha vida. Aos 12 anos, quando eu cheguei em Poços, vinda da Bahia com a minha família, eu vi como é a vida aqui, encontrei-me com pessoas mais evoluídas e passei a me travestir”, diz.
Flavinha fala também, com certa tristeza, que os pais não aceitaram de imediato o fato dela ter começado a se travestir, aos 12 anos.
“Demorou alguns anos para eles entenderem que eu havia assumido. Isso aconteceu há uns dois anos apenas, mas foi uma grande batalha”, afirma.
Sobre praticar sexo por dinheiro, ela conta que os pais sabem do fato, mas ainda não assimilam, com clareza a situação.


A vida em Poços de Caldas

“Minha vida é ótima”, conta Flavinha.Vinda da Bahia há quase oito anos, Flavinha conta que atualmente mora sozinha, no centro da cidade. Os pais também moram em Poços, mas não dividem a mesma casa com a travesti.
Com uma rotina diferente, até mesmo pelo tipo de vida escolhida, durante o dia Flavinha arruma os objetos e pertences em casa.
“Minha mãe tem um estabelecimento em casa e às vezes eu vou para o local, que eu prefiro não citar, como travesti mesmo e as pessoas que entram no estabelecimento me aceitam, me tratam muito bem, da mesma forma que eu as trato”, enfatiza.
Contudo, ela detalha também os maus tratos, vindos do preconceito e de pessoas que não assimilam situações como a que Flavinha vive.
“Claro que existem pessoas maldosas, que me xingam na rua, mas eu passo de cabeça baixa, não respondo, porque a melhor a resposta é o silêncio. Mas eu tento ser normal, aliás, eu sou uma pessoa normal”, destaca.


O programa

Ao assumir que realiza programas sexuais por dinheiro, Flavinha faz questão de ressaltar que é por opção e que faz isso simplesmente porque gosta e sente prazer.
Nas proximidades do Complexo Cultural da Urca, conhecido como ‘paredão’ é onde Flavinha costuma ficar durante as noites, em busca de dinheiro atrelado à satisfação sexual e pessoal.
“Eu costumo ficar ali perto, mas já tenho vários clientes, esperá-los me buscar em casa, pois como sou independente, moro sozinha, eles me pegam em casa ou, aqueles fixos, que eu já conheço há tempos, costumam entrar”, conta.
O preço estipulado por ela vai de acordo com a hora. Quando o programa é feito em casa, Flavinha cobra R$ 100. E quando é na rua, o preço costuma ser de R$ 50 por meia hora, que geralmente é gasta em motéis.
“Ás vezes chega a acontecer no carro ou mesmo em alguns outros lugares que eu já conheço, ou que nos levam, mas que já temos referências”, diz.
Ela conta também que não são todos os dias da semana em que programas são feitos. A freqüência maior é no final de semana, iniciando pela sexta-feira e indo até o domingo.
“Tem dias que eu não vou ao ‘paredão’ pois não estou com cabeça mesmo”, comenta.
Há também horários pré-determinados pelos travestis e garotas de programa que freqüentam os locais famosos por oferecer prostituição.
De acordo com Flavinha, o movimento se intensifica após as 21h da sexta-feira e vai até antes do amanhecer, por volta das 05h.
No local utilizado também para fazer os programas, muitas amizades são feitas entre as outras prostitutas.
“Tenho bastante amigas ali sim, somos bastante reunidas, já passamos por vários desentendimentos anteriormente, mas isso era quando uma não conhecia a outra e gerava aquela confusão, agora, somos bastante reunidas”, relata.



O inusitado


Ao ser questionada sobre situações ou programas inusitados, Flavinha conta que já saiu para fazer programa com dois casais heterossexuais.
“O que eu observo é que as mulheres querem ter uma relação sexual com uma travesti. Já sai com dois casais. Porém, da primeira vez, não fiz nada com a mulher. Já na segunda vez, eu fiz porque fiquei com vontade, aí aconteceu. Foi a primeira vez que eu tive relações com uma mulher”, detalha.
Sobre os programas feitos com homens, ela garante que não existe mais os estereótipos de travesti passivo ou ativo.
“Depende do que os homens querem ou pagam, mas no meu caso, o que eles querem, eu faço”, garante.
O ‘paredão’ por ser um local antigo e já bastante conhecido, por bastante moradores da cidade, como um ponto de prostituição, é também alvo de muitos preconceitos por parte da sociedade e algumas vezes até mesmo da polícia, como conta Flavinha. “Já sofremos algumas ameaças de cidadãos e também, vários policiais já pediram para que deixássemos o local, mas eu não entendo também o por que disso. Não é a primeira cidade de Minas Gerais que tem profissionais do sexo nas ruas, todas as cidades tem. Muitas vezes tentam nos tirar de lá, nos dão ‘gerais’ desnecessárias e ficamos inclusive constrangidas, porque as pessoas passam, olham, eles reviram nossa bolsa, jogam nossas coisas no chão, pedem-nos para tirar a roupa às vezes”, descreve.
Defendendo a classe em que trabalha, Flavinha não acredita que as ações policiais sejam exclusivamente para zelar pela ordem pública e bem-estar da sociedade, mas classifica tais atividades como abuso de poder.
“Tem muita gente em Poços que pensa que a prostituição nas ruas é uma coisa sobrenatural, sabe? São reações super preconceituosas, mas, estas pessoas que pensam assim, por trás disso, são os que vão nos procurar mais tarde. Na calada da noite, eles mostram a verdadeira cara. Porque durante o dia, são umas pessoas, à noite, são outras e isso é o que eu não aceito”, desabafa.
Sobre a procura por programas, Flavinha acredita que o que leva um homem ou mesmo mulher em busca de um travesti na rua é a busca pelo prazer.
“Muita gente tem vontade, mas nem todos tem coragem. Eu acho que é uma fantasia sexual”, destaca.
Já para ela, o maior prazer da profissão é ser reconhecida entre os homens. “Eu gosto da propaganda do boca-a-boca, os homens dizem que eu sou boa e indicam, para que outros saiam comigo. Isso é o que me dá prazer”, afirma.
Além disso, Flavinha não deixa de citar o dinheiro, que de certa forma, vem fácil por meio da prostituição.


Os perigos da prostituição

Por semana, Flavinha consegue ganhar em média R$ 350, ou seja, um pouco menos que um salário mínimo. Porém, vários fatos tristes também fazem parte da história, pouco comum, de Flavinha. Ela conta que no Carnaval de 2007, saiu com um rapaz da cidade vizinha de Caconde-SP.
“Ele começou a passar de carro, que também tinha as placas de Caconde-SP e eu não estava na Urca e na terceira vez que ele passou, parou. Contudo, ele estava com uma cara um pouco suspeita, aparentando estar bêbado”, conta.
Com isso, alertada por uma amiga, Flavinha fotografou uma das placas, como uma espécie de garantia. Dali, Flavinha e o rapaz foram para um local já conhecido por ela, próximo a Avenida João Pinheiro.
“Eu já conhecia e quis ir para aquele local justamente por isso, pensando que se algo acontecesse, eu saberia para onde correr, fugir ou mesmo pedir socorro”, relata.
Daí em diante, um programa entre os dois foi feito e na hora de acertar o prazer recebido, o rapaz não quis efetuar o pagamento, sacando de uma faca.
“Ele disse que não me pagaria, puxou esta faca, porém, eu também estava com uma navalha e tentei me defender. Descemos do carro, começamos discutir e o resultado é que eu tenho uma cicatriz nas costas, onde ele passou a faca em mim. Porém, eu também passei a faca nele. Ele disse que iria registrar um boletim de ocorrência e eu garanti que quem teria a temer era ele, pois todos saberiam com quem ele havia saído e eu explicaria para a polícia que ele não quis pagar meu programa. Porque, neste caso, eu acho que a polícia deve ir atrás”, narra Flavinha.
Após estes fatos, Flavinha começou a correr e gritar ao rapaz que estava com ela que havia tirado foto das placas do carro. Quando chegou no centro da cidade, próximo ao ‘paredão’, o mesmo rapaz parou Flavinha, pediu para ela não fazer nada e lhe deu o dinheiro devido pelo programa.
“Neste momento eu aceitei, mas foi um apuro do qual passei”, diz.
Ela relata ainda que nem sempre anda como armas brancas como facas, estiletes ou navalhas e diz que naquela noite, por sorte, estava com uma navalha.
“Aqui em Poços eu não me armo mais, porque a polícia já me parou, porque tinham pessoas denunciando que estávamos armadas, mas só pode ser quem sai com a gente”, comenta.
Porém, Flavinha afirma que quando vai para a cidade de São Paulo fazer programas, arma-se com medo de sofrer alguma coisa.
Na capital paulista, fato semelhante já aconteceu com ela, contudo, o cara recusou-se a pagar o programa, lhe apontou uma arma e a deixou no meio da rua. “Ele me deixou no meio do nada, eu nem sei onde desci, mas graças a Deus eu tinha dinheiro na bolsa, liguei para um táxi e ele foi me buscar, mas foi um dia em que eu senti bastante medo”, lembra.


O preconceito


“Tem muitas pessoas que nos apontam nas ruas. Acham que somos alvo de zombaria”, diz, ao referir-se ao preconceito existente da sociedade com os travesti e também com as prostitutas.
Contudo, Flavinha destaca que prefere ignorar o preconceito e levar a vida como está acostumada, sem se deixar abater com o julgamento alheio.
“Eu prefiro esquecer isso tudo, embora alguns falem, eu vou levando a vida, pois para conseguir o que eu quero, eu devo passar por isso”, afirma.
Quando diz que quer chegar a algum lugar, Flavinha refere-se ao ideal que criou para si mesma, que é colocar mais silicone no corpo e mais próteses e ela enxerga, como única alternativa para alcançar o sonho, se prostituir.


“Mas eu tento ser normal, aliás, eu sou uma pessoa normal”


Relacionamento


Além dos sonhos já citados por Flavinha e dos planos para o futuro, Flavinha conta que possui um namorado em Poços.
“Ele é muito bacana comigo, acho que ainda é a única coisa que realmente me prende na cidade”, conta.
Os dois se conheceram na rua e segundo relatos dela, ele a aceitou enquanto prostituta. “Mesmo não querendo, ele tenta entender isso”,afirma.




O dia de hoje... o futuro...

Diferente dos relatos comuns de prostitutas, que iniciaram na profissão por falta de recursos financeiros, Flavinha nunca passou nenhuma necessidade e conta que os pais sempre lhe proporcionaram um bem-estar dentro de casa.
“Eles sempre batalharam, tanto na Bahia como aqui, mas me prostituir foi uma opção. Eu não precisava de nada disso que estou passando, é porque eu gosto mesmo, embora não seja fácil ficar na rua, é algo que eu quero passar, para chegar onde eu quero”, relata.
Ela diz também que trabalhar num emprego convencional, por ora, não está nos planos, visto que a rua oferece um dinheiro mais rápido.
Contudo, a travesti relata também que às vezes a rua não é tão agradável e sedutora, numerando fatos como não ter clientes todos os dias, ou fatos desagradáveis com pessoas que fazem o programa e recusam-se a pagar o preço estipulado.
“Eu já procurei empregos convencionais, mas aqui em Poços não consegui nada. Acho que os empresários são preconceituosos ainda. Só existem opções para cabeleireiro e eu quero trabalhar com moda”, conta Flavinha.
Ela diz ainda que não conseguiu se firmar num emprego comum porque deixou de tentar ao longo do caminho.
Atualmente, Flavinha quer continuar na rua, trabalhando como prostituta, mas não descarta a hipótese de, futuramente, dedicar-se ao sonho, que é trabalhar com moda.
Sem se esquecer do sonho e que cada dia ou mesmo programa é um passo dado em direção ao futuro, Flavinha conta que sempre se previne contra Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) ou mesmo da Aids. “Minha bolsa é lotada de camisinhas, eu tenho a carteirinha no DST / Aids e me cuido também. Muitos caras chegam até mim, dizem que são casados, que não tem nada, porém, eu bato o pé e exijo o uso da camisinha”, relata.
Para finalizar, Flavinha reafirma considerar-se uma pessoa bastante feliz e realizada no que faz.
“Eu sou hiper feliz no que sou, no que faço e com as amizades que tenho neste mundo. Eu tenho que dizer para as pessoas abrirem a mente, porque hoje em dia, todo mundo é igual, não tem quem seja diferente, perante Deus, todos somos iguais”, conclui.


A matéria acima foi escrita em maio de 2008 na série "Às margens da sociedade", que eu idealizei no Jornal de Poços. Esta foi uma das matérias que mais gostei de fazer :)

PAZ.
Jéssica Balbino

5 comentários:

WILSÃO NEGREDO E RENATO VITAL A CORRENTE FORTE DO GUETO disse...

Sou a favor da profissão Prostituta, mas e ai depois, quando trabalhamos como operário, se quebrarmos uma máquina, ela pode ser concertada, e se caso o corpo de uma garota for danificado, como é que vai se concertar? Abraços.

Banca dos B-Boyzz disse...

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foradesintaxe disse...

muito fera o texto. Jéssica, vc é a porta-voz da galera marginal rs

Delma disse...

Jess, excelente texto. beijo

keila disse...

Oi Flavinha boa tarde me chamo Keila e sou daqui de Poços e curso direito e tenho como tema da monografia a regularização da prostituição e gostaria de falar com você sobre isso, adorei seu blog e admiro muito sua coragem, Parabéns. Meu msn é keila_carvalho.direito@hotmail.com
aguardo uma resposta, muito obrigada.